Aguarelas | Teresa Cálem

Aguarelas | Teresa Cálem

 

A Tribo da Tereza

<< Talvez um dia te depares com aquele retrato de que te falei. Irás reconhecê-lo de imediato pelos olhos invulgares e pela expressão antinatural desses olhos…então, custe o que custar terás de destruí-lo. >>

Gogol

 

No princípio foi uma conversa onde a Tereza me deu a conhecer a tribo, explicando pouco, mostrando alguma coisa, contando histórias de fadas homens que tinham ido ter com ela e que estavam ali, sem passado e sem nome. Cabeças, para meu espanto e minha inquietação. Fui desfiando palavras que a Tereza ouvia com alguma benevolência, acreditando numas, duvidando de outras, aceitando com surpresa outras ainda. A estranheza absoluta deles, o limiar frágil onde vivem e convivem, o ponto subtil em que deixam o papel e ganham alguma cor, a indistinta passagem entre o humano e o animal, entre a mimesis e a caricatura, entre o ser e o devir, o simbólico e o diabólico, a presença e a assombração.
Depois foi uma visita ao território deles; enormes paredes brancas onde se encontram alinhados em acaso e necessidade, assustadores, hipnóticos, envolventes e suspensos. Continuei a desfiar palavras porque o meu medo já era muito e temia duas coisas opostas: que os rostos desaparecessem ou se animassem. Sabia que o silêncio era o indicado, e insisti em falar no poder de sortilégio de tais imagens, que eu agora dividia em vítimas e carrascos, a tragédia da inocência e o peso da culpabilidade. Dei-lhes pela primeira vez um tempo e uma história. A seguir vi-os em exposição: alinhados e disciplinados, davam-se a ver à curiosidade fortuita ou interessada dos visitantes. Também aí o impacto era poderoso, porque falavam de vida e morte, intensidade e desbordamento.
Enfim defronto-me com eles para efeito de um texto. Palavras e mais palavras que pretendem o quê? Iluminar as caras sombrias? Salvar a humanidade do que a ameaça? Falar da unidade essencial de todas as criaturas, dos seus traços comuns, olhos que fixam, bocas que respiram? Ou da sua diversidade absoluta apesar da unanimidade dos rostos glabros e do seu anonimato?
A Tereza disse que “queria entregá-los a todos purificados e salvos de si mesmos”. De facto, nem toda a criação está amaldiçoada e a toda estará reservada a redenção. Entre a arte e a vida não há distinção nítida, como não há entre estas representações e os seus impossíveis modelos.
E no entanto eu vejo diante de mim porque a Tereza me mandou, a fotografia do menino fada em fundo negro e a do homem fada em fundo branco. E percebo nestas obras feitas com o seu sangue, sensibilidade e dom, a existência do bem e do mal, a condescendência do certo, a fascinação do horror, e não tenho a certeza qual deles triunfa.

Maria João Lello de Ortigão de Oliveira
Lisboa, 29 de Dezembro de 2003

 


 

Nota de Imprensa

Aguarelas

De 24 de Fevereiro a 3 de Abril de 2004

 

Teresa Cálem nasceu no Porto em 1953. Em 1980 vem para o Algarve onde actualmente vive e trabalha. De 1999 a 2004 completa o plano de estudos do Ar.Co em Lisboa, onde teve como professores, entre outros, João Queiroz e Manuel Castro Caldas.
Nesta exposição Teresa Calém apresenta uma série de aguarelas representando cabeças humanas. Estas obras, embora nos remetam para a tradição do retrato naturalista (quer pelo realismo das feições, quer pela apresentação frontal ou de perfil das figuras ), não são retratos na acepção comum do termo uma vez que não se referem a qualquer pessoa em particular.
Os rostos são compostos a partir de pormenores de diversos modelos e, por motivos técnicos e de produtividade ( dado que entre os tempos de secagem a artista vai percorrendo as superfícies, alternadamente, construindo imagens por etapas ), são executados em séries de três ou quatro simultaneamente.
No final do processo o que resulta é uma fisionomia humana que surpreende pela sua verosimilhança e vividez. De tal modo é trabalhada a expressão do sentimento e da emoção através da representação pictórica que se é levado, empaticamente, a atribuir a estas imagens, ficcionais e fortuitas, uma ‘verdadeira’ individualidade e um carácter humano.

Artadentro,

Vasco Vidigal

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