Flutterbies | Vanessa Chrystie

Flutterbies | Vanessa Chrystie

Vanessa : Reflexões sobre o Efémero

A afirmação de que as formas artísticas contêm em si toda a sabedoria e poder de selecção do espectador, poderia levar-nos a pensar que elas são elementos estáticos, esperando passivamente ser lidas, o que não acontece. Na verdade, e embora encerradas na superfície, as formas agitam-se e tornam-se elementos activos, entrando e saindo de campo (utilizando linguagem cinematográfica), do nosso campo visual e de entendimento imediato. Trata-se realmente de uma batalha, o processo de descodificação de uma pintura, quando as formas se entrechocam, aparecendo e reaparecendo depois, com diferentes e imprevisíveis significados. Nesse momento imaginamos que elas obtiveram, por mérito próprio, vida e autonomia.
Para acomodar uma tal multiplicidade de formas, Vanessa vale-se de espaços onde consegue evidenciar os conceitos que a cultura contemporânea nos tem imposto a todos. E consegue, de uma maneira muito particular, estabelecer uma ponte entre mundos tão distintos como são o sagrado e o profano, o visível e o invisível, a natureza e a cultura.
O seu trabalho transcende a esfera da percepção imediata, não só devido à ambiguidade dos temas, como pelos desafios que uma leitura mais atenta nos provoca. O que se impõe a Vanessa Chrystie é a permanência da sua experiência pessoal, sob a forma de memória visual. Fantasmas alados povoam o espaço numa proposta de tridimensionalidade, numa sugestão de fugaz liberdade que a autora aprisiona em pormenores de um rigor impressionante. O significado de liberdade, tema crucial para a compreensão da sua obra, é contraposto pelas atitudes mais ou menos explicitas de passividade que a autora exibe.
Apesar de a pintura figurativa ter feito uso de poderosa imagética sexual, exemplos mais recentes mostram-nos o corpo feminino ao serviço de várias causas, políticas ou outras, mais preocupadas no entanto com as diferenças de género do que com fins eróticos. A abordagem particular que Vanessa faz ao corpo feminino, denota uma total ausência de convenções e de subordinação a padrões estabelecidos. Na sua obra e de uma maneira consistente, a artista não representa a mulher mas apresenta-a como um símbolo, de acordo com Nancy Spero quando afirma the body is a symbol or a hieroglyph, in a sense, an extension of language… I want the idea of a woman’s body to transcend that which is a male ideal of women in a man-controlled world.
Com efeito a pintora trata o corpo como se pretendesse apontar uma presença inexistente, como se o simples facto de traçar uma linha de contorno bastasse para denunciar tão significativa presença. Mas serão apenas linhas acusando passividade, limites de forma sem mácula, continentes sem conteúdo, imatéricos, objectos tornados sujeitos/mulheres, ou pretenderão mostrar o contrário de tudo isso?
A existência constante de conceitos opostos na pintura de Vanessa Chrystie, proporcionam tal ambiguidade e diversidade de leituras, que acabam por transformá-la num imenso desafio intelectual.

Teresa Vasconcelos 
Master of Fine Arts

 


 

Nota de Imprensa

Flutterbies

De 25 de Maio a 26 de Junho de 2004

Vanessa Chrystie nasce em Londres em 1972. Em 1994 ingressa no Ar.Co. em Lisboa onde conclui o Plano de Estudos Completo em 2000, tendo frequentado os ateliês de Pintura, Desenho, Escultura e Cerâmica. Desde 1998 participa em exposições individuais e colectivas, tendo sido convidada a participar na edição deste ano do prémio CELPA / Vieira da Silva — a decorrer na Fundação Arpad Szénes-Vieira da Silva, em Lisboa, ainda durante a sua mostra na Artadentro.

Desde as primeiras obras, Vanessa Chrystie explora o universo das orquídias num exercício em que, aparentemente, a sensibilidade predomina, assim como o interesse pelas temáticas actuais como a ecologia e a condição feminina. Nesta exposição, as obras exibidas — a tinta-da-china, aguarela e gouache — reafirmam estes interesses, num movimento introspectivo em que a autora, usando metaforicamente a representação de borboletas — significativamente com predominância da espécie Vanessa — reflete com ironia sobre a sua condição de mulher, confrontando-se com os estereótipos colados ao universo feminino contemporâneo.

ARTADENTRO

Vasco Vidigal

 

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