Bote | Marta Caldas

exposição de desenho de Marta Caldas, grafite sobre papel
exposição de desenho de Marta Caldas, grafite sobre papel
exposição de desenho de Marta Caldas, grafite sobre papel

Inauguração: 22 de Maio, às 18h00 
23 MAI – 04 JUL

Museu Municipal de Faro
Praça Dom Afonso III 14, 8000-149 Faro
Horário: 3ª. a 6ª das 10h00 às 18h00 / Sáb. e Dom. das 10h30 às 17h00.
(última entrada 30 minutos antes de encerrar)
Encerra 2ªs e feriados

A exposição Bote, com desenhos da artista plástica e poeta Marta Caldas, dá continuidade ao programa do ciclo de arte contemporânea Eklektikós, fruto da parceria Artadentro/Museu Municipal de Faro.

O termo“bote” é rico de sentidos com aplicação possível aos desenhos que compõem esta mostra: desde logo o de “escaler” ou de “pequeno barco a remos ou à vela”, que apela a um percurso; o de “golpe”, como numa acção rápida e decidida; ou “perda” e “desfalque”, associados às ideias de “tornar boto ou rombo”, e por contração de desbotar, “perder a cor”, “esmaecer”; mesmo pela corrente utilização que do termo se faz no português do brasil, sempre implicando uma acção de pôr ou tirar; e mesmo “ir no bote”, no sentido de confundir e/ou enganar.

Este Bote, que Marta Caldas agora nos propõe, apresenta um conjunto de desenhos a grafite s/papel, com um carácter intimista — no sentido em que apela a um público restrito, dotado de uma sensibilidade apurada. Um desenho que, como diria o filósofo, trabalha as “pequenas percepções”.

O facto, é que não podemos deixar de ter em conta o duplo talento de Marta Caldas para a poesia e para o desenho. E, como será possível constatar nesta ocasião: se na sua poesia há muito desenho, com certeza que no seu desenho há muita poesia.

— Quem por isso se interessar, poderá adquirir o novo livro e aquáticos” de Marta Caldas, durante a exposição. 

Sobre a artista: 

Marta Caldas (Lisboa, 1982), expõe regularmente as suas obras desde 2006. Expôs QUEDA na Artadentro em 2008. Para além de exposições e projectos individuais, tem participado em exposições colectivas e colabora com frequência em projectos e «peças – exercícios» com outros artistas, nomeadamente com Armanda Duarte, Eduardo Petersen, Maria Teresa Silva, Mariana Ramos e Thierry Simões. Em 2012, integra o Viewing Program do Drawing Center, Nova Iorque.

Como escritora/poetisa, publica em 2014 e 2018, pela Editora Hélastre, os livros “Abecedário abetardário” e “Fotografismos e instantâneos”, com Regina Guimarães. Em 2019 e 2020, publica pela Editora Douda Correria os livros “Assembleia” e “e aquáticos”.

Artadentro, 
Vasco Vidigal


 

à superfície

 

A luz que vem de um “sfumato” confunde-se com o vazio, esbate-se nele, numa espécie de apagamento, dissolução ou desaparecimento. As linhas farpadas e quebradas desenham fitas de Moebius interrompidas e depois uma linha suspensa ou exercícios que se juntam aleatoriamente. O desenho escora-se não se sabe onde.

O espaço quase branco produz efeitos de superfície. Até chegarmos às formas, aos moldes, aos fragmentos, aos estilhaços impossíveis de se articularem, muito já desapareceu. Dentro de cada desenho, virado para fora e para dentro, ao mesmo tempo, estão sequências e blocos que se deslocam e separam em séries.  Vivem das linhas, dos pontos, das manchas, das zonas móveis e sensíveis que se desenham no papel. Poderoso atractor, preparado com gesso acrílico, gerador de diferenças mínimas de intensidade variável, o papel é um grande duplicador de sombras e faz proliferar as impressões.

O começo de cada série organiza a superfície, manipula os fragmentos, os objectos quase primitivos e transparentes, as partículas reduzidas à imperceptibilidade, a anatomia impossível dos corpos.

O que fornece a matéria ao desenho? O contorno que se define? O contorno do fragmento que é a circunscrição da sua força?

É preciso saber ver um desenho…

Quando as linhas se curvam e desdobram em sombras, todo o espaço parece mais dócil, delineia-se para destacar o fundo do papel que não existe ou a língua indecifrável e violenta que se contrai e se estende prolongando-se para fora dele e projectando-se noutro desenho. Os desenhos ressoam uns nos outros e enquanto se esfumam, desfazem-se e disjuntam-se.  Sobem no ar numa tensão de naufrágio de que se quer escapar nem que seja por um triz.

O que foi que se perdeu dos objectos e das coisas?

Sem palavras, porque o desenho não vive sem elas. Desarticula-as, ramifica-as, torna-as tão negras como o breu, fá-las explodir. Desenhar é assim passar pela profundidade e pelo caos. E trazer consigo os fragmentos, os estilhaços sem identidade e sem limites até chegar às forças que ficam suspensas em emissões ou que voam em lançamentos expostos à superfície. E, eis que quando transparecem, quando parecem definir-se num contorno, logo se dissociam e dispersam em pedaços retalhados, em cacos e sombras das sombras. O desenho evolui e confunde-se consigo mesmo, não se pode compreender compreendendo-se a si próprio. Ele é o que traça e quase não ocupa lugar, o excesso e a ausência, a zona de multiplicidade do detalhe.  No recorte, à superfície dos desenhos, circulam partículas sonoras e luminosas, energias mínimas que se esfumam em rumores e só se pressentem. Podiam ser letras, sinais, feixes náufragos, mas são traços disjuntos, arrancados de um tempo sem memória, e que experimentam por instantes a folha de papel.

Espelha-se nela “um não sei quê” que não se vê suficientemente. O desenho está sempre lá, antes das coisas e das palavras. Sobrevive-lhes e desdobrando-se ao infinito torna-se possível na sua impossibilidade.

O traço impossível do vazio…

Há uma arte das superfícies, uma potência do desenho, que vem directamente do vazio: “através das significações abolidas e das designações perdidas, o vazio é o lugar do sentido ou do acontecimento que se compõem com o seu proprio não-sentido, lá onde não há mais lugar a não ser o lugar. O vazio é ele próprio o elemento paradoxal, o não-sentido de superfície, o ponto aleatório sempre deslocado de onde jorra o acontecimento como sentido.” (Gilles Deleuze)

Ana Godinho