Capela do Museu de Faro, soluço, de Rui Vasconcelos
Capela do Museu de Faro, soluço, de Rui Vasconcelos
Capela do Museu de Faro, soluço, de Rui Vasconcelos


Vista geral da exposição (créditos fotográficos: @Vasco Célio / Stills)

Rui Vasconcelos

Soluço

De 18 de outubro até 8 de fevereiro de 2026

Museu Municipal de Faro
Praça Dom Afonso III 14, 8000-149 Faro
Horário: 3ª. a 6ª das 10h00 às 17h30 / Sáb. e Dom. das 10h30 às 16h30.
Encerra 2ªs e feriados

É com a apresentação da obra de Rui Vasconcelos (Lisboa, 1967) que finalizamos o ciclo de exposições Reset 23/26, com curadoria da Artadentro, realizado com o apoio do Município de Faro e do Museu Municipal de Faro.

soluço

Pranto entrecortado, perturbação no acto de soluçar, um frémito, um suspiro e/ou movimento do mar a arfar, são alguns dos sinónimos para a palavra ‘soluço’.
Soluço é, assim, um som involuntário do corpo que, quando o diafragma é puxado para baixo do tórax, entre respirações, é atingido por pequenos estalidos de ‘hic-hic’ em cadência, numa duração rítmica, apenas, e durante alguns minutos. A circulação de ar, própria à acção de respirar, é cortada e o movimento de ir-e-voltar sofre uma fractura.

Platão, em O Banquete, elege Aristófanes, como aquele que será interrompido por um ataque de soluços, na sua vez de discursar. Retirando a palavra ao dramaturgo da comédia grega, Platão aponta o corte, a pausa e altera a ordem prevista dos seguintes oradores. Independentemente da ironia, da atrapalhação e, inclusive, da confusão instalada, mesmo sabendo que a palavra será devolvida adiante, o discurso destinado a Aristófanes fica suspenso. É preciso parar! Enquanto isso, observa-se e escuta-se.

*

Imediatamente, a primeira imagem que vem ter connosco, quando desejamos ter acesso a um trabalho de Rui Vasconcelos, aquela que preenche a nossa visão, é a de uma floresta. Desenhada-pintada em encáustica, a floresta é densa, vasta, delicada, organizada em torno de uma clareira, onde árvores, ramos e uma imensidão de pequenas folhas se evidenciam, sobre o espaço do papel.

E se o papel tem importância! Não só no limite da própria imagem da floresta, como também, e sobretudo, na ausência da inscrição que lhe sobeja.

Num processo de diluição, entre pigmento e cera de abelha, o gesto indispensável à encáustica, para que a pincelada não endureça, é um instante. Nesse compasso, com movimentos certeiros, contínuos e dinâmicos, o estado líquido urge pelo tempo de secagem.

Os desenhos a encáustica foram, são ainda, embrião e corpo de trabalho de Vasconcelos.
Agora, na presente exposição, não há encáustica. Na Capela do Museu de Faro, soluço, de Rui Vasconcelos, vem da continuidade de um percurso rigoroso, lento e sincopado.

Dois desenhos, Estudos para natureza de registo, a lápis de cera, representam o mar. Aqui, o tempo é lento e a duração, na tarefa de fazer, é mais sensível, precisamente, pela fragilidade do lápis sólido – a qualquer momento pode quebrar-se.

Desenhados sobre um plano horizontal, ambos os ‘estudos’ são circunscritos por uma moldura traçada a grafite que opera como vestígio do começo. E, no entanto, essa linha define a imagem a ser marcada-delineada. O espaço circundante do papel, que acolhe em si a imagem, fecha-a dentro dele, trazendo a primeiro plano o aveludado de um mar sanguíneo, azul, verde e branco que se abre como guarnição ao apetecível lápis de cera polido: a marca reforça a mancha.

Hoquetus I, II, III, IV e V são os nomes escolhidos para as cinco gravuras também na presente exposição. E ‘Hoquetus’ é uma forma de composição rítmica musical iniciada na época medieval, que tem como tradução mais próxima um soluço. Aqui, na música, altera-se a configuração sonora do soluço, porque é preciso estabelecer o acorde. Para tal, convém não esquecer, esse acorde, na sua síncope melódica, deve possuir uma alternância rápida de um conjunto de notas e de ritmos.

Cada gravura, uma das quais vertical, é constituída por fragmentos, outrora desenhos apresentados em Os últimos dias, Centro de Arte Moderna, Fundação Gulbenkian, Lisboa, 2000. Agora, reproduzidos, esses fragmentos dão a ver a distância e a aproximação entre claridade e obscuridade. Sendo o processo de gravura mais veloz, comparativamente ao acto de desenhar, os resultados da experiência permitem a rápida e eficaz visualização dos trabalhos.

Estas gravuras devolvem um tempo enquanto sucessão e outro enquanto energia e intensidade. Por um lado, o tempo enquanto sucessão é manifesto nos vinte cinco anos que separam Os últimos dias de soluço. Mas não há repetição, nostalgia e/ou qualquer intenção de retomar. Regressa-se ao mesmo local, mas nunca à mesma floresta. Por outro lado, o tempo, enquanto intensidade e energia, à semelhança de um ‘hoquetus’ não se conclui, enquanto está em evidência.

Embora, o tempo nunca se canse de abocanhar a sucessão dos anos, ele encontra uma distensão que ocorre enquanto durar o processo. Um compasso (in)voluntário que, entrecortado, actua para ser vivenciado. Porque afinal de contas, não se sabe como vai acabar! Nem quando!

A ligadura, entre desenho e gravura, firmada pelas linhas prensadas-gravadas, traz à claridade a desconhecida obscuridade, isto é, as zonas escuras e densas mancham e marcam o ritmo de cada trabalho. Através de várias chapas de zinco que, se sobrepõem e se encostam umas ao lado das outras, multiplicam-se as paisagens.

Em Rui Vasconcelos, a sua marca de ourives incide, justamente, na sua resistência às duas formas de tempo nomeadas. Insistir no mesmo modelo, seja pela passagem dos anos, seja pela intensidade e energia, restitui a diluição de uma experiência já muito saturada. Torna o movimento mais fácil, que fica sempre aquém do desejado. O ‘inacabável’ de um estudo, de um desenho, de uma encáustica e/ou de uma gravura, encaminha-se para o desejo de plenitude; contudo, o trabalho, pontuado pelo corte, a pausa, a fractura e, evidentemente, pelo soluço, anuncia transformações: liberdade e espanto.

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Soluços, de Pixinguinha e Benedito Lacerda, 1949

Cristina Robalo
Outubro, 2025


RUI VASCONCELOS fez a sua formação no Ar.Co em Lisboa. A sua obra integra algumas das mais importantes colecções nacionais de arte contemporânea. O seu trabalho tem sido apresentado desde 1999 em várias mostras da Coleção do CAMJAP (Coleção do Centro de Arte Moderna José de Azeredo Perdigão) da Fundação Calouste Gulbenkian.

Rui Vasconcelos exposição individual no Museu Municipal de Faro. 2025Detalhe de Estudos para natureza de registo, 2025

hiccup

(soluço)

A broken sob, a disturbance in the act of sobbing, a tremor, a sigh, and/or the movement of the sea gasping for breath — these are some of the synonyms for the word soluço (hiccup).

A hiccup is, thus, an involuntary sound of the body which, when the diaphragm is drawn downward into the thorax between breaths, is struck by small bursts of “hic-hic” in cadence, of rhythmic duration only, and lasting a few minutes. The flow of air, proper to the act of breathing, is interrupted, and the back-and-forth movement suffers a fracture.

Plato, in The Symposium, chooses Aristophanes as the one who will be interrupted by a fit of hiccups when it is his turn to speak. Taking the word away from the Greek comic playwright, Plato points to the cut, the pause, and alters the expected order of the subsequent speakers. Regardless of irony, embarrassment, or even the confusion that ensues — even knowing that the word will later be returned — the discourse destined for Aristophanes is left suspended. One must stop! In the meantime, one observes and listens.

*

Immediately, the first image that comes to meet us when we wish to approach a work by Rui Vasconcelos — the one that fills our vision — is that of a forest. Drawn-painted in encaustic, the forest is dense, vast, delicate, organized around a clearing where trees, branches, and an immensity of small leaves become visible upon the space of the paper.

And how important the paper is! Not only in defining the limits of the forest’s own image, but also — and above all — in the absence of inscription that remains beyond it.

In a process of dilution between pigment and beeswax, the gesture indispensable to encaustic painting — so that the brushstroke does not harden — lasts only an instant. In that rhythm, with movements that are precise, continuous, and dynamic, the liquid state urges toward the moment of drying.

The encaustic drawings were — and still are — the embryo and body of Vasconcelos’s work.

Now, in the present exhibition, there is no encaustic. In the Chapel of the Faro Museum, soluço (hiccup), by Rui Vasconcelos, emerges from the continuity of a rigorous, slow, and syncopated path.

Two drawings, Studies for a Nature of Record, executed in wax crayon, represent the sea. Here, time moves slowly, and duration — in the task of making — is more perceptible precisely because of the fragility of the solid pencil: it may break at any moment.

Drawn upon a horizontal plane, both ‘studies’ are circumscribed by a graphite frame that operates as a trace of the beginning. And yet, that line defines the image that is to be marked — delineated. The surrounding space of the paper, which receives the image within itself, encloses it, bringing to the foreground the velvety surface of a sanguine, blue, green, and white sea that opens like an ornament around the desirable, polished wax crayon: the mark reinforces the stain.

Hoquetus I, II, III, IV, and V are the titles chosen for the five prints also included in the current exhibition. Hoquetus is a rhythmic musical form that originated in the medieval period, and its closest translation is hiccup. Here, in music, the sonic configuration of the hiccup changes, for it becomes necessary to establish the chord. To do so, one must not forget that this chord, in its melodic syncopation, must contain a rapid alternation of a set of notes and rhythms.

Each print — one of them vertical — is composed of fragments, once drawings presented in Os últimos dias (The Last Days), at the Centro de Arte Moderna, Calouste Gulbenkian Foundation, Lisbon, in 2000. Now reproduced, these fragments reveal both the distance and the closeness between clarity and obscurity. Since the process of printmaking is faster than that of drawing, the results of the experiment allow for a swift and effective visualization of the works.

These prints return time to us both as succession and as energy, as intensity. On the one hand, time as succession is manifested in the twenty-five years that separate Os últimos dias from soluço. Yet there is no repetition, no nostalgia, nor any intention of resuming. One returns to the same place, but never to the same forest. On the other hand, time as intensity and energy — like a hoquetus — never concludes while it remains in evidence.

And although time never tires of devouring the succession of years, it discovers within itself a dilation that occurs for as long as the process endures. A (in)voluntary measure that, broken and intermittent, acts so that it may be lived. Because, after all, one never knows how it will end — nor when!

The binding between drawing and printmaking — established through the pressed-engraved lines — brings to light an unknown obscurity: that is, the dark and dense zones that stain and mark the rhythm of each work. Through several zinc plates that overlap and lean side by side, landscapes multiply.

In Rui Vasconcelos’s work, his goldsmith’s mark lies precisely in his resistance to the two forms of time named above. To insist on the same model — whether through the passage of years or through intensity and energy — restores the dilution of an already saturated experience. It renders movement easier, yet always short of the desired. The unfinishable nature of a study, a drawing, an encaustic, or a print moves toward the desire for plenitude; however, the work, punctuated by cut, pause, fracture, and, evidently, by hiccup, announces transformations: freedom and wonder.

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Soluços, from Pixinguinha and Benedito Lacerda, 1949

Cristina Robalo

October, 2025